terça-feira, 31 de julho de 2012

Juli e Lelê




Passando uns dias na casa de minha irmã,não pude deixar de notar,uma amizade tão pura entre duas priminhas... Sabe aquela amizade que a gente parece estar grudado uma na outra, nessa fase de idade, que parece que não se sabe fazer nada, sem o que outro o acompanhe, era assim Julinha e Leticinha, carinhosamente eu batizei: Juli e Lelê...

Julinha, a mais velha, é toda suavidade e doçura, numa moreninha linda de olhos negros e serenos e cabelos longos do mesmo tom, rechonchuda da cabeça aos pés, sabe aquelas bochechas enormes irrestíveis que a gente tem que apertar, assim é essa moçinha, faceira, charmosa, e meiga como uma flor....Leticinha, o oposto, moleca travessa, veloz, serelepa, olhinhos espertos,cabelos escorridos da cor do mel, esguia feito a boneca que ela tanto aprecia...

Essas duas amigas-primas, se divertiam a valer, era de noite, era de dia, não se desgrudavam, coisa linda de se ver...Lelê, comandava, ao passo que Juli, acompanhava, tranqüila, serena, sem reclamar, se tinha vontades, quem saberia? A doce menina, de nada falava,nem ao menos comentava sobre a sua vontade, ao meu parecer, era todo entendimento e prazer que compartilhavam de todas aquelas brincadeiras, pois criavam, inventavam, fabricavam com aquele poder que só mesmo as crianças têm de se organizar e recriar as mais inusitadas brincadeiras...

Atento ás atitudes delas, era um ir e vir do apartamento, ora ficavam trancadas no quarto, de repente, passavam apressadamente e iam as duas prédio abaixo, no playground, aconteceu que nesses dias, Lelê havia ganho a primeira cachorrinha, que estava causando verdadeiro alvoroço apto a fora, aquela fase de adequação a novo território e o mais engraçado é que as duas, não suportavam a pobrezinha tentando abocanhar seus calcanhares, saiam gritando e aos pulos ao primeiro sinal de contato com a cachorrinha, que ainda bebê nada entendia, e parecendo notar o medo das duas, ao vê-las saia correndo em direção a elas abanando o rabinho, e obviamente era repelida instantaneamente...

Por conta disso, ficavam trancadas no quarto, mas não faltava animação, tudo essas amigas compartilhavam, e era assim, em dupla...elas acordavam juntas, se trocavam juntas, se “maquiavam” juntas, pois apareciam para almoçar todas maquiadas, eram lábios de bonecas pintadas tipo “Barbie” naturalmente da cor rosa bem forte a combinar com as sombras do mesmo tom, se perguntadas onde iam, diziam:
“ a lugar algum, é só para brincar mesmo“...rsrs...

A tarde, lá iam elas, naquela cumplicidade gostosa que dava gosto de ver...apareciam esfomeadas para o lanche da tarde, que compartilhavam com aquela alegria inocente, de achar graça em tudo, depois era banho, também as duas juntas, a noite, compartilhavam filmes e  mais tarde, eram livros que  abriam antes de dormir, elas tinham suas próprias regras, e quando menos se esperava, estava as duas a dormir e a ressonar no mesmo quarto e se possível na mesma cama, e  não era por falta de espaço que dormiam juntas, e sim, opção...

Ah....amizade de infância, cumplicidade, afinidades, bom demais, melhor quando perduram pela vida afora, quem nunca teve um amigo inseparável e quando este faz parte da família então...





quarta-feira, 25 de julho de 2012

Jadhe



Mônada verde do cerne da cor
Criando em vida, repleto vigor
Burilando  a mente, renasce semente
Coração valente,eterno labor
De tantos sabores, temores, e dores
Diagrama de vida, embora restrita
Polindo o destino, se faz reluzir
A chama divina, centelha de amor

Na idade tenra, que eu ministrei
Castelos de sonhos que eu divulguei
De fábulas e estórias que um dia eu contei
E muitos até que eu mesma inventei
Ninando teu sono, cantigas criei 
Em berço sereno,eu te embalei
Dos sonhos vividos eu compartilhei
Dos planos futuros, que eu desejei
O melhor dessa vida  pra ti eu sonhei

Revive na mente ainda criança
Na ponta do pé, exuberante ballet
Dançando pezinhos de bailarina
Doce menina, alegre desperta 
Cantigas de roda, de rosas em flor
Melodias perene, exala valor

Quisera sempre poder enxugar 
Teus olhos morenos,intensos de mar
Mostrando a fúria,e a inquietude
Que  ora é mansa, e tão recatada
Ora é ardida, se estás ferida
Dona e mestra de suas vontades
Revés de moinhos de sentimentos
Trazendo a tona todos seus tormentos
Canções ao vento se faz com o tempo

És filha amada, e tão desejada
Preciosa demais, jóia rara
Essência de vida, pedaço de mim
Por mais que te dizem, 
Que não é só teu
Eu reafirmo que é todo seu
O meu grande amor, 
Meu pensar, meu cuidar
Que em seu destino irei velejar

No seu lado sempre, eu hei de estar
Seguindo sempre o seu caminhar
Segue feliz pela sua  trilha
Que eu e os anjos sempre te guiam
Gema estimável que se chama filha
És Bia, bebê, Princepeza, firmeza

És doce menina, donzela, princesa
És forte, valente, és pedra, és Jadhe.



quarta-feira, 4 de julho de 2012

Trem Fantasma



Era tarde, e nada do professor terminar a bendita aula, justo naquele dia, sua amiga tinha que faltar...Finalmente soou o sinal...aff!!! Juntou rapidamente o material e saiu em disparada rua a fora...de longe ouvia a brincadeira da turma...
- Corre mesmo, se não vai pegar o trem fantasma...
Ainda tinha que agüentar isso,não bastasse o frio cortante, a solidão, fome...vamos lá, chegou o primeiro quarteirão...ninguém a vista, nem carro, rua deserta, as velhas casas abandonadas e sombrias de sempre...de repente, um ruído,um mal cheiro insuportável, e alguém se mexia...avistou na calçada, dois moradores de rua...cabelos em desalinhos, olhos esbugalhados, farrapos daquilo que deveria ter sido uma roupa, enrolados em farrapos de cobertores a se protegerem como podiam do frio...seu coração doía, ficava pequenininho a medida que passava apressadamente por eles, jamais se acostumaria com sena tão lamentável...enfim foram ficando para trás...
E agora, virar a esquina, mas peraí, gritos, palavrões, epa ! Briga a vista, mais essa agora, espiou atrás do poste, Meeuuu Deeeeuus, a essa hora e trombadinhas disputavam a socos e pontapés o que deveria ter sobrado, não dava pra saber se era droga ou alimento, mas realmente não ia pagar pra ver, era sair dali rapidamente, se eles a vissem, já era...deu meia volta, e “zás”,apelar para o plano B, pegar o atalho...agora sim, perderia mais tempo, a hora voava, e o temor aumentando, não podia perder o trem, se tivesse asas nos pés, levantaria vôo, porém o jeito era correr o máximo que podia...
De repente...vultos vindo a sua direção...aiaiaiai...e agora, o que seria???
Dois vultos enormes e bem maquiados diga se de passagem, aff!!! Travestis a vista, cabelos longos e louros, maquiagem carregadas, mini saia com top, num frio descomunal daqueles, como agüentavam??? Vinham alegremente conversando se equilibrando naqueles saltos descomunais...ela passou por eles como um raio, mas ainda os ouviu zombando...
- Vá pra casa menina, isso são horas, rsrsrsrs...eu, hein??? Rsrsrsrs....
O que acham que eu estou fazendo??? Idiotas...
Falta pouco agora, o muro da estação...Yes !, daria tempo, tinha que dar...apressou mais o passo, e agora...vixi...as prostitutas...oh...situação...velhas, algumas desdentadas, cabelos desgrenhados, batom excessivamente vermelhos,nos rostos excessivamente esquálidos, o que mais faltava aparecer...e o coração, novamente aquela dor aguda, e ele ficando pequenininho, preferia olhar na direção contrária, não conseguia encarar...
Avistou a estação...enorme, com a iluminação noturna parecia maravilhosamente bela, com aquela arquitetura em estilo inglês, estrutura metálica reforçando e embelezando todo o telhado enorme, coloração marrom, combinando com as paredes em amarelo,toda iluminada e acima da torre,o majestoso Relógio...e...olha a hora...é pegar as escadas e correr o máximo que podia...
- Barulho de trem ao longe...estaria chegando ou partindo...voou escada a baixo, enroscando na catraca...e mais um corredor, e o outro gigante, e agora o ultimo lance de escada, pior era a subida...aja...fôlego...mais um lance e o outro e agora o ultimo,e quando subiu...deu de cara com a porta, o trem estava de partida....
- Nããoooo, espera...que nada, o ultimo vagão sumia noite a fora...e agora, o que fazer???e se não tiver outro trem, ou pior, e se tiver só o bendito “trem fantasma”, o que fazer, encarar ou desistir, mas ficar ali, naquela estação gigante e sozinha...o que mais de pior poderia lhe acontecer...
Olhou ao redor, e nos bancos de madeira marrom, ninguém a vista, ou melhor,lá onde, avistava uma cabeça, toda encapuzada recostada, devia estar dormindo...bom...ao menos não estava só, já era um consolo, ou não...
Procurou manter a calma, era respirar e pensar, nada mais a fazer e esperar...
Os pensamentos bombardeavam-lhe a mente, e se vier o famoso “trem fantasma”, seria verdade ou mito...deixa pensar...
Bom,o pessoal dizia que era o último trem, e antigamente ele era o dos estudantes, porém, depois de muitos acidentes, brigas e mortes, ele fora abandonado, ninguém se atrevia a pega-lo, pois diziam que ouviam vozes vindo dos vagões, sem alma humana a bordo, ou até pior, os que se atreviam a pega-lo, eram empurrados por mãos invisíveis trilhos a fora...ouviam-se gritos, choros, lamentações vagões a fora...e agora...o que fazer???
Quer saber, nada ! é manter a calma, respirar e esperar e esperar e seja o que Deus quiser...
Os minutos se arrastavam, o silêncio incomodava, o frio era cortante, a escuridão dos trilhos ao longe, assustadora...depois do que se parecia uma eternidade de espera, um ruído no trilho ao longe...uma luz fraca que vinha se aproximando lentamente...finalmente, seria o trem?? A tortura acabara...sim,era ele, e agora, não sabia se ficava alegre, triste, o medo, mais uma vez o medo ia avolumando dentro de si....
Ele chegou lentamente, e foi parando, parecia estar completamente vazio...a porta se abriu, e ai, vou ou não vou?? Oh...duvida cruel...o negócio era encarar, como aprendeu desde criança, melhor encarar o medo de vez...então ta...lá vou eu...entrou e correu pro primeiro banco que viu, porém poderia escolher, estavam todos vazios...olhou ao redor, um ou dois passageiros sentados cada um na extremidade contrária...pareciam adormecidos, nem se deram conta que ela entrou...Meeeuuuu Deeeuuusss, isso seria bom ou mal, será que eram os tais fantasmas...seja o que for, não ia dar importância...apertou a bolsa contra o corpo, como a espantar o frio, e o trem partiu...
O barulho estridente dos trilhos, com as rajadas de vento que assoviava lá fora, era ensurdecedor, o chocalho dos vagões pra lá e pra cá, pareciam ninar o sono, ah...noutras condições, com certeza tiraria um cochilo, os olhos insistiam em fechar, e ela insistia em abri-los, imagina que ia arriscar dormir ali sozinha...nem pensar, era agüentar firme, as estações iam passando uma a uma, lentamente naquela maratona infernal que parecia não ter fim...situação, viu!!!
Enfim...ultima estação, e ainda estava viva...de vez em quando aparecia um ou outro passageiro trôpego que irrompia vagão a dentro a cada estação, mas isso não mais a assustava, ao menos não estava só...pensava...engraçado é que ninguém descia...estranho...chegou finalmente sua estação...aff!!! Mal esperou a porta a se abrir e desceu correndo...sobreviveu, se fosse esse o tal trem, era ela a sobrevivente...aff!! Teria história pra contar quando chegasse em casa, quer dizer, se chegasse, pois perderá também o ultimo ônibus, e agora era terminar a jornada a pé...mas isso não era nada, o pior já tinha passado, neh? Estava em seu bairro, conhecia-o como a palma de sua mão, nada mais poderia acontecer, e no máximo umas meia hora, estaria em casa e a salvo, vamos lá: “pernas pra que te quero”...e apressou o passo...falta pouco...
E foi atravessar a rua, e alcançar a esquina, um cachorro uivou solitário...aiaiaiai...essa não, de novo sozinha e tinha “pavor” de cachorro...dá nada não,é só um cachorro,virou a esquina e mais um e um, agora era um coro de latidos, o que fazer, correr? Sem chance, e se eles viessem atrás...bom o jeito era disfarçar e mais uma vez “pernas pra que te quero”...lá se foi rua a fora, sendo escoltada pelos cachorros todos da vizinhas...chegou finalmente, aff! Dentro de casa finalmente, que noite...acabou, tinha menos que 5 horas para descansar e recomeçar a maratona...ao menos tinha sobrevivido a tudo, inclusive ao bendito trem, que nem fantasma, nem nada, mito apenas, mais uma das muitas lendas urbanas...