Era tarde, e nada do professor terminar a bendita aula, justo naquele dia, sua amiga tinha que faltar...Finalmente soou o sinal...aff!!! Juntou rapidamente o material e saiu em disparada rua a fora...de longe ouvia a brincadeira da turma...
- Corre mesmo, se não vai pegar o trem fantasma...
Ainda tinha que agüentar isso,não bastasse o frio cortante, a solidão, fome...vamos lá, chegou o primeiro quarteirão...ninguém a vista, nem carro, rua deserta, as velhas casas abandonadas e sombrias de sempre...de repente, um ruído,um mal cheiro insuportável, e alguém se mexia...avistou na calçada, dois moradores de rua...cabelos em desalinhos, olhos esbugalhados, farrapos daquilo que deveria ter sido uma roupa, enrolados em farrapos de cobertores a se protegerem como podiam do frio...seu coração doía, ficava pequenininho a medida que passava apressadamente por eles, jamais se acostumaria com sena tão lamentável...enfim foram ficando para trás...
E agora, virar a esquina, mas peraí, gritos, palavrões, epa ! Briga a vista, mais essa agora, espiou atrás do poste, Meeuuu Deeeeuus, a essa hora e trombadinhas disputavam a socos e pontapés o que deveria ter sobrado, não dava pra saber se era droga ou alimento, mas realmente não ia pagar pra ver, era sair dali rapidamente, se eles a vissem, já era...deu meia volta, e “zás”,apelar para o plano B, pegar o atalho...agora sim, perderia mais tempo, a hora voava, e o temor aumentando, não podia perder o trem, se tivesse asas nos pés, levantaria vôo, porém o jeito era correr o máximo que podia...
De repente...vultos vindo a sua direção...aiaiaiai...e agora, o que seria???
Dois vultos enormes e bem maquiados diga se de passagem, aff!!! Travestis a vista, cabelos longos e louros, maquiagem carregadas, mini saia com top, num frio descomunal daqueles, como agüentavam??? Vinham alegremente conversando se equilibrando naqueles saltos descomunais...ela passou por eles como um raio, mas ainda os ouviu zombando...
- Vá pra casa menina, isso são horas, rsrsrsrs...eu, hein??? Rsrsrsrs....
O que acham que eu estou fazendo??? Idiotas...
Falta pouco agora, o muro da estação...Yes !, daria tempo, tinha que dar...apressou mais o passo, e agora...vixi...as prostitutas...oh...situação...velhas, algumas desdentadas, cabelos desgrenhados, batom excessivamente vermelhos,nos rostos excessivamente esquálidos, o que mais faltava aparecer...e o coração, novamente aquela dor aguda, e ele ficando pequenininho, preferia olhar na direção contrária, não conseguia encarar...
Avistou a estação...enorme, com a iluminação noturna parecia maravilhosamente bela, com aquela arquitetura em estilo inglês, estrutura metálica reforçando e embelezando todo o telhado enorme, coloração marrom, combinando com as paredes em amarelo,toda iluminada e acima da torre,o majestoso Relógio...e...olha a hora...é pegar as escadas e correr o máximo que podia...
- Barulho de trem ao longe...estaria chegando ou partindo...voou escada a baixo, enroscando na catraca...e mais um corredor, e o outro gigante, e agora o ultimo lance de escada, pior era a subida...aja...fôlego...mais um lance e o outro e agora o ultimo,e quando subiu...deu de cara com a porta, o trem estava de partida....
- Nããoooo, espera...que nada, o ultimo vagão sumia noite a fora...e agora, o que fazer???e se não tiver outro trem, ou pior, e se tiver só o bendito “trem fantasma”, o que fazer, encarar ou desistir, mas ficar ali, naquela estação gigante e sozinha...o que mais de pior poderia lhe acontecer...
Olhou ao redor, e nos bancos de madeira marrom, ninguém a vista, ou melhor,lá onde, avistava uma cabeça, toda encapuzada recostada, devia estar dormindo...bom...ao menos não estava só, já era um consolo, ou não...
Procurou manter a calma, era respirar e pensar, nada mais a fazer e esperar...
Os pensamentos bombardeavam-lhe a mente, e se vier o famoso “trem fantasma”, seria verdade ou mito...deixa pensar...
Bom,o pessoal dizia que era o último trem, e antigamente ele era o dos estudantes, porém, depois de muitos acidentes, brigas e mortes, ele fora abandonado, ninguém se atrevia a pega-lo, pois diziam que ouviam vozes vindo dos vagões, sem alma humana a bordo, ou até pior, os que se atreviam a pega-lo, eram empurrados por mãos invisíveis trilhos a fora...ouviam-se gritos, choros, lamentações vagões a fora...e agora...o que fazer???
Quer saber, nada ! é manter a calma, respirar e esperar e esperar e seja o que Deus quiser...
Os minutos se arrastavam, o silêncio incomodava, o frio era cortante, a escuridão dos trilhos ao longe, assustadora...depois do que se parecia uma eternidade de espera, um ruído no trilho ao longe...uma luz fraca que vinha se aproximando lentamente...finalmente, seria o trem?? A tortura acabara...sim,era ele, e agora, não sabia se ficava alegre, triste, o medo, mais uma vez o medo ia avolumando dentro de si....
Ele chegou lentamente, e foi parando, parecia estar completamente vazio...a porta se abriu, e ai, vou ou não vou?? Oh...duvida cruel...o negócio era encarar, como aprendeu desde criança, melhor encarar o medo de vez...então ta...lá vou eu...entrou e correu pro primeiro banco que viu, porém poderia escolher, estavam todos vazios...olhou ao redor, um ou dois passageiros sentados cada um na extremidade contrária...pareciam adormecidos, nem se deram conta que ela entrou...Meeeuuuu Deeeuuusss, isso seria bom ou mal, será que eram os tais fantasmas...seja o que for, não ia dar importância...apertou a bolsa contra o corpo, como a espantar o frio, e o trem partiu...
O barulho estridente dos trilhos, com as rajadas de vento que assoviava lá fora, era ensurdecedor, o chocalho dos vagões pra lá e pra cá, pareciam ninar o sono, ah...noutras condições, com certeza tiraria um cochilo, os olhos insistiam em fechar, e ela insistia em abri-los, imagina que ia arriscar dormir ali sozinha...nem pensar, era agüentar firme, as estações iam passando uma a uma, lentamente naquela maratona infernal que parecia não ter fim...situação, viu!!!
Enfim...ultima estação, e ainda estava viva...de vez em quando aparecia um ou outro passageiro trôpego que irrompia vagão a dentro a cada estação, mas isso não mais a assustava, ao menos não estava só...pensava...engraçado é que ninguém descia...estranho...chegou finalmente sua estação...aff!!! Mal esperou a porta a se abrir e desceu correndo...sobreviveu, se fosse esse o tal trem, era ela a sobrevivente...aff!! Teria história pra contar quando chegasse em casa, quer dizer, se chegasse, pois perderá também o ultimo ônibus, e agora era terminar a jornada a pé...mas isso não era nada, o pior já tinha passado, neh? Estava em seu bairro, conhecia-o como a palma de sua mão, nada mais poderia acontecer, e no máximo umas meia hora, estaria em casa e a salvo, vamos lá: “pernas pra que te quero”...e apressou o passo...falta pouco...
E foi atravessar a rua, e alcançar a esquina, um cachorro uivou solitário...aiaiaiai...essa não, de novo sozinha e tinha “pavor” de cachorro...dá nada não,é só um cachorro,virou a esquina e mais um e um, agora era um coro de latidos, o que fazer, correr? Sem chance, e se eles viessem atrás...bom o jeito era disfarçar e mais uma vez “pernas pra que te quero”...lá se foi rua a fora, sendo escoltada pelos cachorros todos da vizinhas...chegou finalmente, aff! Dentro de casa finalmente, que noite...acabou, tinha menos que 5 horas para descansar e recomeçar a maratona...ao menos tinha sobrevivido a tudo, inclusive ao bendito trem, que nem fantasma, nem nada, mito apenas, mais uma das muitas lendas urbanas...

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