sexta-feira, 27 de abril de 2012

As bonequinhas Orgulhosas



Clarinha e Burubinha estavam felizes, pois reinavam absolutas no quarto das meninas, depois que o Ursinho entristecido e enciumado se fora, eram elas as prediletas entre todos os brinquedos e as brincadeiras que havia. Eram para elas todas as atenções e as comidinhas e carinhos, e roupinhas e sapatinhos e maquiagens, ah... Como eram felizes e amadas...
Elas eram disputadas nas festas, e lugares que eram levadas pelas suas donas orgulhosas e felizes, sempre com um novo penteado, ou vestido de festas, um mais lindo do que outro, e sempre que apareciam, já causavam aquele alvoroço, afinal elas eram as únicas a reinar absoluta no armário e no coração das meninas...
E o tempo foi passando, mas as inseparáveis amigas não se preocupavam, mesmo que os outros brinquedos as alertassem:
- Cuidado, deixam de tanta autoconfiança, com o tempo elas irão esquecer-se de vocês, assim como fizeram com o ursinho tristonho.
Mas elas diziam rapidamente.
- Que nada, conosco é diferente, somos as fiéis e amadas companheiras delas, jamais seremos substituídas, de tantos outros que vieram pra cá depois de nós duas, nenhum as roubou a afeição, porque iremos nos preocupar?
- Vocês é que sabem, estamos avisamos, pois já passamos por isso, olha lá o armário delas e as caixas de brinquedos, não vêem que estão cheias de brinquedos antigos e despedaçados?
- Sabemos disso, mas não corremos esse risco, não vê o quanto elas nos amam? E o quanto se preocupa conosco, vivem nos dando banhinho, comprando roupas novas, e à medida que crescem, elas nos coloca em suas brincadeiras, olha bem pra nós, não vêem que agora já estamos agora na fase de adolescentes? Que elas não nos tratam mais como bebezinhos, temos até namorados? Olha eles lá na estante delas?
- Sim, lembramos disso, mas ainda assim, eu não sei não, se fossem vocês duas não estariam tão seguras disso, pois já vimos tantos casos semelhantes, uma hora elas se cansam e substituem vocês, estamos avisando, mas vocês é que sabem...
Mas as bonecas, nem deram ouvidos a eles,
- Imaginam só, elas jamais seriam esquecidas, eles sim, estavam velhos e quebrados e estavam eram revoltados e sempre foram ciumentos e inconformados com a preferência das duas meninas, imagina se preocuparem com isso, sendo que o lugar cativo das duas, eram em cima da cama diariamente e ao lado delas na hora de dormir, não se separavam jamais, mesmo quando elas viajavam, lá estavam as duas com roupinhas novas, prontinhas pra viagem, ah...deixa pra lá, são uns invejosos e ciumentos, isso sim...
No quarto reinavam brincadeiras de montão, até que um dia surgiu algo novo, as meninas receberam um presente diferente... Os brinquedos então se reuniram curiosos para ver qual era esse novo brinquedo, mas ele não apareceu no quarto como era de costume...
Eles olharam, espiaram, espreitaram e nada... Os dias se passaram e nada do novo brinquedo aparecer, os brinquedos diziam:
- Viu só, não avisamos que era só uma questão de tempo para vocês serem substituídas?
Mas as bonecas diziam orgulhosas:
- Que nada, nunca seremos substituídas, e cadê esse brinquedo novo?, Se ele chegou, porque não está aqui como todos os outros, nem no armário, nem na caixa de brinquedos, vocês sabem que mais cedo ou mais tarde, elas sempre os trazem para cá, e se até agora não vieram, é porque não existe, isso é invenção de vocês, seus invejosos...
- Ah... é , e porque então elas não estão mais brincando com vocês como antigamente, não notaram que passam a maior parte do tempo fora e nem levam vocês duas?
- Claro que notamos seus bobos, só que é por que andam ocupadas, estão crescidas, não dá pra ficar brincando o tempo todo, mas a noite estamos sempre ao lado delas, nunca nos deixam fora da cama delas, não vêem isso?
É verdade, mas as coisas estão mudando, e é melhor vocês duas se prepararem para o pior, pois começa assim mesmo, aos poucos elas vão crescendo e se esquecendo de vocês e quando perceberem já estarão jogadas e largadas nos armários feito nós...
Porém as amigas, não se preocuparam com isso, sabiam do Amor das meninas e se sentiam únicas e insubstituíveis, isso era uma fase, iria passar e pronto tudo voltaria ao normal.
E os dias se passaram, sem que elas estivessem no auge das brincadeiras, a noite cada uma ia para sua cama com a sua dona, porém durante o dia, elas sumiam, ficavam fora o dia todo, as bonecas então começaram a se preocupar, mas pobre bonequinhas, o que poderiam fazer?, se as meninas pareciam não mais se interessar tanto por elas, a não ser se lamentar uma com a outra e as escondidas, para que os outros brinquedos não as escutassem e caçoassem mais ainda delas...
Aconteceu que numa tarde, as meninas chegaram felizes, pegaram as bonecas, as trocaram e saíram para uma brincadeira no quintal. As bonecas então felizes que estavam pensaram:
- Era só uma fase mesmo, a partir de agora, tudo voltará a ser como antes... E lá se foram felizes com as meninas quintal a fora, e foi uma tarde maravilhosa, brincaram e brincaram até que de súbito, aconteceu algo inesperado que lhes chamaram a atenção.
Num momento em que as meninas brincaram “ele” apareceu correndo e brincando, e pulando e fazendo um barulho diferente que elas nunca tinham ouvido antes, e foi o suficiente para que as meninas as colocassem de lado, jogando-as na caixa de brinquedos para ir correndo se divertir com o novo amigo.
E que enorme tristeza elas sentiram, quando se sentiram trocadas, rejeitadas, ou melhor, substituídas e sem a maior consideração por aquele “ser” tão esquisito e diferente que apareceu por lá e sem maiores cerimônias, roubou-lhes o carinho e a atenção instatâneamente.
Ah... As bonecas ficaram inconformadas e começaram a brigar e a xingar e chorar, para ver se chamavam a atenção das meninas, mas elas pareciam nem ver e muito menos ouvir o choro delas, tão entretidas que estavam com seu brinquedo novo...
- Ah... Disseram as bonecas, então era esse o famoso “brinquedo novo” delas, descobrimos finalmente, mas porque será que ele só vive aqui, não entra no quarto como todos nós, será que é melhor que nós todos, ou melhor o que será que ele tem que nós não temos? Diziam elas inconformadas uma para a outra.
E decidiram observar aquele novo “brinquedo”, qual seria o segredo dele, o que ele tinha de tão bom que atraia assim a atenção das meninas? E espiaram e espiaram, até que uma delas, a Clarinha falou:
- Já sei Burubinha, acho que eu descobri o segredo dele?
- Descobriu?, e o que é Clarinha, pois eu ainda não entendi?
- Simples Burubinha, olhe bem pra ele, veja como ele é diferente de nós, percebeu?
-Não, como assim? O que há de tão diferente nele, pra mim ele é feio, grande, preto, sem graça, não estou vendo nada demais.
-Não está vendo porque não quer, presta atenção...
Tá, eu também achei ele feio, e sem graça, mas sei o que ele tem de diferente, olha com atenção.
Burubinha olhou, e olhou e não parecia compreender o que a amiga queria dizer, o que ela viu foi um “Ser” todo peludo, todo preto, com uma mancha marrom abaixo da cabeça, um par de orelhas esquisita, e uma coisa estranha atrás que elas e os outros brinquedos não tinham e que por incrível que pareça, não ficava parado, se movia, pra lá e pra cá, a medida que ele andava?
Mas... espera, ele Andava?
Então, será que era isso? Ela observou com maior atenção e viu que ele não só andava sozinho, sem que as meninas o tivessem que carregar como sempre faziam com os demais brinquedos... Sim, ele andava, e corria, e pulava, e saltitava e ainda emitia um som estranho quando andava, som esse que as meninas adoravam!, e que quando ele soltava esse som, saia correndo atrás delas, e elas então, corriam, e gritavam e pulavam, e ele também fazia igual, corria atrás delas, e pulava e balançava aquela coisa que ele tinha atrás, e elas ficavam Encantadas com ele, e por isso não parava de rir, e pegar ele no colo, e beijar e apertar e tudo mais..
Clarinha ao ver Burubinha assim pensativa a observar perguntou?
- E ai, entendeu agora o que ele tem de diferente da gente?
- Sim, acho que sim, ele é muito diferente mesmo, tem uma coisa que nenhum de nós tem, acho que entendi o que é, ela faz muita coisa que nós não conseguimos fazer...Acho que é porque ele tem...
-Tem o que Burubinha?
-Não sei bem o nome, mas acho que ele tem VIDA, será que é isso Clarinha?
-Sim, Burubinha, é isso mesmo, ele tem VIDA PRÓPRIA, não depende das meninas pra fazer o que quer, e eu acho que eu sei agora o que ele é.
-Ah...é, e o que afinal de contas ele é Clarinha, não é um brinquedo novo delas?
- Sim, não deixa de ser, é o novo brinquedo delas sim, só que não é como nós, eu já vi muitos desses naquelas histórias que a mãe das meninas lia pra elas a noites antes de dormir, você se lembra?
- Ah...acho que agora estou me lembrando sim...
-Pois é, acho que ele é um Cachorro, ou melhor, um Cachorrinho, por isso elas estão tão felizes e encantadas com ele, porque ele não é somente um brinquedinho novo, como nós sem vida, que precisam delas pra tudo, ele é um Cachorrinho, um animal, entendeu?
-Puxa, agora sim, e porque os animais, ou melhor, os cachorros são tão diferentes de nós?
-Não sei ao certo, mas já que estamos aqui, esquecidas, vamos observar eles brincando, quem sabe a gente consegue entender melhor.
E foi o que fizeram... Passaram a tarde toda jogada num canto da caixa de brinquedos, observando todo e qualquer movimento deles...
As bonecas, depois de entenderem o porquê dessa nova amizade, ficaram espiando que quando as meninas saíram do quintal, o cachorrinho as acompanhou só que ele não entrou na casa junto com elas, ele bem que quis, mas elas o levaram para a “casinha dele”, e não é que o danado tinha até uma casa só pra ele? E depois viram que elas o alimentaram e deram água e tudo mais...
Percebeu então o quanto ele era diferente delas, e por isso, se entristeceram mais ainda, pois chegaram a conclusão que não iam conseguir competir com ele, que elas jamais as iriam amar como antes, já que agora tinha esse Cachorrinho, e tiveram que concordar, ele era realmente muito bonitinho mesmo, por isso as meninas ficavam tão felizes com ele.
Ele era todo pretinho, peludinho, seu peito tinha uma manchinha marrom, que era o maior charme, as orelhas eram compridas combinando com seu rosto que era compridinho, ele era todo gordinho, seu pela era brilhante, reluzia ao sol, e ainda tinha aquele rabinho que balançava pra lá e pra cá toda vez que ele corria, deixando as meninas encantadas.
E como se não bastasse tudo isso, ele ainda fazia todos os movimentos sozinhos, sem depender delas pra isso, ao contrário delas que pareciam depender do carinho e do amor dele, pois era só ele escorregar ou cair no chão, lá vinham elas todas preocupadas, a pegar ele no colo, a beijar e a minar ele.
E as brincadeiras também eram diferentes, elas pediam pra ele correr atrás delas, e lá ia ele, numa alta velocidade a correr, pular e a saltitar atrás delas, e ainda por cima, quando elas jogavam a bolinha ou algum outro objeto, ele ia correndo, e num salto abocanhava o objeto e já o trazia para elas rapidamente, o que as faziam dar pulos de alegria e satisfação.
Daí era um tal, de abraçar, e beijar, e apertar e fazer coceguinhas na sua barriguinha, que deixavam elas malucas de felicidades, pois ele parecia interagir com elas, ele também ria, e latia o tempo todo, bem alto, e dava pequenas mordidinhas em seus calcanhares e elas pareciam adorar isso.
E não parava só nisso não, ele parecia entender o que as meninas falavam, as bonecas perceberam que o “jeito” como ele falava com as meninas era diferente, mas ainda assim eles pareciam se entender perfeitamente, ao passo que era elas pedir algo a ele, ele entendia e obedecia rapidamente, principalmente quando elas falavam assim:
- Corre!
- Pega a Bolinha!
- Vai Deitar!
Ou coisas assim, e que deixavam as meninas completamente apaixonadas por ele mais ainda...
Ah... E também descobriram o nome dele, é claro, pois as meninas não paravam de chamá-lo pelo nome o tempo todo, aliás, elas já não agüentavam mais ouvir aquele nome que para elas era feio demais, mais que as meninas pareciam adorar: Bille!!! Pois era esse o nome que elas não se esqueceriam jamais, e ficava ali martelando em suas cabeças, era Bille pra lá, Bille pra cá.
Ou então,
- Bille como você é lindinho...
Ou,
 - Ai, como o Bille é fofinho,
Ou ,o pior ainda
- Sai pra lá o Bille é só meu agora,
- Não ele é só meu, e começavam aquela briga por causa dele, numa disputa acirrada, uma puxava-o pelo rabo, a outra pegava uma das patas e ele reclamava e lutava e se soltava e saia correndo e as duas iam lá desesperadas correndo atrás dele,e a brincadeira recomeçava...
E dessa maneira, julgando não ter como competir com tamanha criaturinha tão amada, e também por entenderem amargamente o que os outros brinquedos as tentavam alertar que como eles também foram trocados, um dia elas também o seriam, as bonecas entenderam finalmente que o dia delas chegou, e que como eram extremamente orgulhosas, não iriam permitir que os outros brinquedos debochassem delas, sendo assim, resolveram que o melhor a fazer seria sair dali o quanto antes, afinal as meninas nem iriam notar a sua ausência, afinal já tinham com quem se divertir dali para frente, e quem sabe até, depois que elas se fossem, levariam o Bille pra dormir com elas em suas camas, com certeza ele iria ocupar o lugar delas em suas camas.
E dessa maneira, a tarde veio e passou...
Enquanto isso, as meninas que se preparavam para dormir, procuravam pelas bonecas pela casa toda, mas elas não estavam no armário, no quarto e em lugar algum dentro da casa, já estavam preocupadas, quando uma delas se lembrou da brincadeira a tarde no quintal, e que com certeza elas ainda estariam ali, e saíram as pressas a procurar as bonequinhas.
Mas qual não foi a sua surpresa, depois de revirar toda a caixa de brinquedo e não as encontrarem ali.Correram então pelo quintal, no jardim, até na casinha do Bille e nada, as bonequinhas pareciam ter desaparecidas.
Daí foi uma tristeza danada, pois elas não iriam conseguir dormir sem as bonequinhas adoradas, e foi uma choradeira danada, que o Pai das meninas, saiu ao seu socorro, procurando acalmar as meninas e dizendo que na manhã seguinte iria comprar outras bonecas para elas.
Mas as meninas choravam, e diziam que não queriam outras bonequinhas, elas eram as suas filhinhas queridas, queriam Clarinha e Burubinha de volta, por mais que tivessem outros brinquedos, elas as amavam e não queriam ficar sem elas.
O pai, então ofereceu o cachorrinho Bille para dormir com elas, apenas aquela noite, para elas se acalmarem.
Mas nem o cachorrinho Bille conseguiu alegrar as meninas, por mais que elas o amassem, elas sentiam a falta das bonecas e não queriam ficar sem elas, porque também as amavam demais.
Diante daquilo tudo, os brinquedos então reunidos e munidos de um sentimento de amor e carinho pelas meninas, sentiram falta das bonecas, e entenderam o quanto tinham sido injusto com as bonecas, caçoando e desprezando elas o tempo todo, mas de que adiantaria isso agora, já que as bonecas se foram e pelo jeito seria para sempre.
A noite parecia não ter fim, brinquedos tristes amontoados num canto do quarto, o cachorrinho Bille tristonho a chorar, ora nos calcanhares de uma, ora nos calcanhares da outra, tentando alegrar, mas sem nenhum resultado. E as meninas, chorosas cada uma em sua cama, a espera de um sono que não vinha nunca, já que não conseguiam pregar o olho, pois no lugar onde as bonecas dormiam estava vazio, e nada parecia preencher aquele vazio.
O Pai, então, numa ultima tentativa de resolver aquela situação, chamou a Mãe a fazer uma ultima busca no quintal a fim de encontrar as bonecas perdidas.
Saiu à busca, revirando tudo que via pela frente, e não é que próximo ao portão encontrou Clarinha e Bruninha com as roupinhas todas sujinhas e amassadas largadas já bem próximas a rua.
-Ufa! Que felicidade, enfim ele as encontrou, chamou rapidamente a mãe, que imediatamente, as acolheu e fora imediatamente trocar aquelas roupas sujinhas, limpou os seus rostinhos, ajeitou seus cabelinhos, e foi ao encontro das meninas entregarem-lhes finalmente.
A mãe então bateu suavemente na porta do quarto das meninas, e chamou:
- Meninas olham só quem voltou pra vir dormir com vocês?
Quando as meninas olharam, e viram que as bonequinhas voltaram, deram um pulo de suas camas, e foram correndo cada uma pegar a sua e a cobrir elas de beijos, e carinhos e afagos, e foi uma alegria geral, porque os brinquedos também estavam felizes ao ver as bonequinhas de volta, e começaram todos a festejar a pular, e a gritar de felicidade com a volta delas.
As bonequinhas, mal puderam acreditar no que virão, pois não imaginavam serem tão amadas por todos aqueles brinquedos, e principalmente pelas meninas, pois achavam que elas nem sentiriam a falta delas, já que tinham o cachorrinho Bille.
Foi uma alegria geral, as bonecas estavam de volta cheias de felicidade, os brinquedos felizes com a volta das antigas companheiras, mesmo orgulhosas e briguentas, eles amavam elas, e até o cachorrinho Bille parecia entender aquilo tudo, pois corria de um lado pra outro, latinho e pulando, abanando o rabinho pra lá e pra cá, ora pulando nas meninas, ora pulando na cama, ora em cima das bonequinhas e todos riam felizes e animadamente.
Mamãe arrumou o quarto e a cama das meninas, colocando-as para dormir, e finalmente todos conseguiram dormir em paz.
Naquela noite, os brinquedos e principalmente as bonequinhas orgulhosas entenderam que quando se há Amor Verdadeiro, jamais seremos esquecido, por mais que outros venham a morar no nosso coração, sempre há espaço para todos.Pois o Amor é o sentimento mais puro que existe, e ele é infinito, não acaba nunca.





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