quarta-feira, 6 de junho de 2012

Triste Despertar...

O dia estava lindo e convidativo para um passeio, ou quem sabe uma nova brincadeira, e a menina saiu a correr pelos campos, apreciando o cantarolar dos pássaros e de toda a natureza que a envolvia.
Ao passar pelo pequeno galpão, um cheiro delicioso a fez parar instantaneamente e como que automaticamente ela foi sendo atraída por aquele cheiro tão suave e agradável que lhe chegava ás narinas, dando-lhe aquela sensação de familiaridade, então meio que devagar e aos poucos foi adentrando, abrindo a porta...
Espiou em volta, e ninguém a vista, claro que não haveria importância alguma se entrasse e desse uma espiada, apenas isso pensou...
Porta adentro então, passou os olhos pelo local, de onde vinha tão delicioso sabor... Ao lado da mesa, bem um pouco abaixo de um fogão enorme de lenha, eis que havia um enorme tacho cheio de doce de leite, que pelo jeito acabara de ser feito pela mãezinha...
Hummm...mas que delicia, era mesmo seu doce preferido, mas ela não iria esperar até que lhe fosse servido, afinal, que mal haveria se experimentasse, só um pouquinho, ninguém iria perceber...
Procurou por uma colher, ajoelhou-se ao lado do tacho, pois este era enorme perto dela, mas podia alcançá-lo, mas a vontade era tamanha que ela não pensou em mais nada, começou a comer e a comer, e estava ainda morninho, do jeito que ela mais gostava e esqueceu-se do mundo lá fora, concentrando-se apenas no seu estômago e no apetite voraz de devorar toda aquela quantidade de doce até não agüentar mais...
E o tempo passou, e a menina depois de ter comido tudo quanto podia, não agüentou e o cansaço lhe abateu, num soninho gostoso e macio que parecia não deixá-la pensar em mais nada que não fosse apenas dormir, só um pouquinho...
E foi assim, em meio ás fagulhas das cinzas do fogão de lenha no chão, que deixou seu vestido todo acinzentado e o melado do doce espalhado por todo rosto e cabelos, que ela adormeceu pesadamente se deixando cair para debaixo da enorme mesa de madeira...
A tarde veio e a noite chegava e os pais da menina estavam preocupados com sua ausência, e nesse momento já haviam percorrido toda a região em busca dela, e nas vizinhanças e vasculhado a casa toda, incluindo pomar e quintal e nada dela aparecer...
Porém, eis que a mãe lembra-se de ter preparado pela manhã seu doce favorito, e avisa ao pai que talvez ela pudesse estar no antigo galpão, pois ali ainda não haviam procurado...
Correram então á busca desesperada, e qual não foi à surpresa quando ao entrar, se deparou com a menina num sono profundo toda lambuzada de doce...
A confusão foi tamanha e ela tão profundamente adormecida nem se apercebeu, o que a acordou de solavanco foram um barulho estridente de uma cinta em seu corpo, o estalido e a dor eram tamanhos que ela não conseguia emitir som algum, e seus olhos mal podiam ver quem a atingia com tamanha velocidade, os ouvidos não conseguiam atinar som algum, tamanho era a confusão em sua cabeça, o mundo parecia girar a sua volta, ela olhava e não conseguia atinar na imagem a sua frente, ela procura ouvir e não entendia, pois o único som que seus ouvidos registravam eram os do estalido feroz e incessante em sua frágil pele, cortando seu vestido e a maneira rude com que tudo acontecia, não dava tempo para que ela gritasse, ou implorasse por socorro, tentava correr, ou fugir dali, mas braço forte a atrelava, fazendo-a rodopiar várias vezes numa velocidade que ela não saberia o quanto iria suportar, até que finalmente, após exaustivo tempo que para ela parecia uma eternidade, tudo cessou, não havia mais sons, estalidos, dores, gritos ou lamentos, tudo parou de repente, e era só a escuridão que seus olhos puderam enxergar, e um silencio que seus ouvidos detectaram e seu corpo não mais suportava seu próprio peso, que embora frágil, se fazia demasiadamente grande e pesado, enfim tombou finalmente, e tudo passou, enfim, adormeceu...
Nota: A violência contra a criança infelizmente é algo comum, e a falta de divulgação e informação, aliadas á imaturidade por parte de pais e famílias desajustadas ainda causam danos e seqüelas nas vidas de muitas crianças...

Um comentário:

  1. Parabéns pela crítica! Precisamos de mais artistas que promovam não só suas criatividades, seu talento, mas unam á isso suas críticas á um sistema ainda falível, levando a todos obras lindísimas como as suas e que provoquem além do nosso deleite e encantamento tbm o nosso despertar, mesmo que ainda lento. Diria que pra mim esse conto se chama "Tempo de despertar" pq o triste despertar da menina não é tão triste quanto o dos adultos que ainda não despertaram para suas responsabilidades paternais, esses sim são com certeza mais infelizes que ela.... Ótimo trabalho!

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